sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Unesco lança livro Multilinguismo no Mundo Digital

UNESCO lança a versão em inglês da sua publicação Securing a Place for a Language in Cyberspace, que primeiro apareceu em francês em 2007 e foi traduzida para várias línguas desde então. A versão original foi preparada com a assistência da União Latina e a contribuição do especialista Marcel Diki-Kidiri.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Lula e multilinguismo

O Presidente Nicolas Sarkozy esta semana deixou claro a importância de Lula no cenário internacional. E aí vem a brincadeira, como se ele não fala inglês, e por isso não poderia ocupar uma posição de destaque no cenário político internacional.

Praticamente trata-se de um argumento insustentável, uma vez que ele já ocupa esta posição de destaque, que tende a crescer. Mas aproveito a questão para falar de um tema que me é caro, o multilinguismo, ou a política da circulação das línguas no mundo hoje. Existem aproximadamente algo entre seis ou sete mil línguas vivas no planeta hoje. O Brasil é o sétimo país multilingue do mundo, convivendo com 190 línguas indígenas vivas, somada às línguas migrantes que chegaram aqui através do tráfico de escravos, e posteriormente das imigrações.

Sem dúvida, a questão do nosso Presidente se expressar exclusivamente em português chama a atenção de quem trabalha com linguagem, em épocas de globalização. Além do mais, sua linguagem é bem mais próxima da nossa prática cotidiana, do que da língua brasileira das prateleiras das academias.

Mas porque ele deveria saber inglês? O inglês é hoje uma língua dominante, fato incontestável. Mas as línguas que reinam no cenário político internacional se modificam na cultura ocidental. Antes do inglês foi o francês que dominou o cenário diplomático internacional. E um presidente como Lula, constrói cenários, mais do que se adequa a eles. Neste sentido se olharmos para os dados do crescimento econômico, talvez soe melhor que sua segunda língua seja o chinês. Ou, pensando na integração do Mercosul, é mais interessante para nossa vida íntima do continente que a segunda língua do Presidente seja espanhol. Mas, se pensarmos que o japonês é a segunda língua mais falada do Brasil (a primeira é o português, nossa língua oficial), seria genuíno e bastante representativo da realidade brasileira que nosso presidente saiba japonês. Mas pensando na história do Brasil, e no fato de que por mais de 200 anos se falou Língua Geral aqui (o Português chegou praticante junto com o Rei D. Joao VI), e que uma versão da Língua Geral, o Nheengatu, continua vivo no norte do país: o fato do Presidente ter como segunda língua a Língua Geral seria um luxo completo. Mas veja que sempre haverá os mais tradicionais, que gostariam que ele fosse fluente em latim e na leitura dos clássicos; ou os otimistas que prefeririam que ele domine a língua destinada a por fim aos desentendimentos: o esperanto.

O importante é que ele possa falar, e ser compreendido. E é por isso que na instância em que ele está existem as figuras dos tradutores.

É desejável e salutar falar várias línguas, perceber as diferenças culturais, se perceber por uma outra cultura. Esta perspectiva de convivência democrática entre as línguas locais, línguas regionais e línguas internacionais é importante para a formação do brasileiro dentro e fora do pais. O ideal seria que todos nós brasileiros falássemos, digamos, uma língua indígena, a língua oficial de nosso país e uma língua de maior acesso internacional. Este seria um modo contínuo de estar em contato com as diferentes realidades que compõem nossa vida cotidiana.

Mas no caso do nosso Presidente é importante lembrar que a capacidade de promover diálogo não está ligada à língua que falamos (ou que não falamos), mas à natureza da relações que estabelecemos. E esta atitude positiva no cenário internacional pode abrir para o Brasil e para os brasileiros as portas de todas as línguas do mundo.